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Césio 137 em Goiânia: quantas pessoas realmente morreram?

Técnico da CNEN com roupa de proteção mede radioatividade da cápsula de Césio-137 em Goiânia durante a descontaminação em 1987.
Césio 137 em Goiânia: O desastre de nível 5 que gerou 6 mil toneladas de lixo radioativo e centenas de vítimas.

Goiânia, sexta-feira (27). O acidente com o Césio 137 em Goiânia é o maior desastre radiológico da história do Brasil — e muita gente ainda não sabe a dimensão real do que aconteceu. O governo diz que foram 4 mortos. As vítimas dizem que foram mais de 100. Quem está certo? Leia até o final e descubra o que os números escondem.

Veja também: 13 Mistérios sobre o Césio 137 que Poucos Conhecem — e o Mais Perturbador Está no Número 5

O que foi o acidente com o Césio 137?

Tudo começou em 13 de setembro de 1987, numa clínica de radioterapia abandonada no centro de Goiânia.

Dois catadores encontraram uma cápsula metálica pesada entre os escombros. Sem saber o que carregavam, desmontaram o equipamento e venderam as peças para um ferro-velho.

Foi lá que o dono do estabelecimento abriu a cápsula e liberou no ar 19,26 gramas de cloreto de Césio-137 — um pó azul brilhante que logo chamou a atenção de todo mundo ao redor.

O brilho era bonito. E era mortal.

Familiares, vizinhos e crianças foram ver a “novidade”. O material radioativo se espalhou por roupas, mãos, casas — sem nenhuma barreira de proteção.

Quantas pessoas morreram com o Césio 137?

Essa é a pergunta que ainda divide especialistas, associações de vítimas e o governo — quase 40 anos depois.

Os registros oficiais reconhecem 4 mortes diretas, todas em outubro de 1987:

NomeIdadeData da morteCausa
Leide das Neves Ferreira6 anos23/10/1987Septicemia e infecção generalizada
Maria Gabriela Ferreira37 anos23/10/1987Hemorragia interna
Israel Baptista dos Santos20 anos27/10/1987Complicações por radiação
Admilson Alves de Souza18 anos28/10/1987Complicações por radiação

Mas esse número é só o começo da história.

O número que o governo não reconhece

A Associação de Vítimas do Césio 137 afirma que, até 2012, cerca de 104 pessoas morreram nos anos seguintes — vítimas de cânceres e doenças diretamente ligadas à contaminação por radiação.

Outras estimativas apontam para ao menos 60 mortes ao longo das décadas.

A divergência existe porque é tecnicamente difícil provar, décadas depois, que o câncer de uma pessoa foi causado pela exposição ao Césio — e não por outro fator.

Resultado: o debate segue aberto. E as famílias seguem sem resposta.

A menina de 6 anos que virou símbolo de uma tragédia

Leide das Neves Ferreira tinha apenas 6 anos quando brincou com o pó azul brilhante. Chegou a ingeri-lo.

Ela desenvolveu inchaço no corpo todo, perdeu os cabelos, sofreu danos nos rins e nos pulmões, além de hemorragia interna.

Morreu em 23 de outubro de 1987. Foi enterrada num caixão especial de fibra de vidro revestida com chumbo — para conter a radiação.

Mesmo assim, mais de 2.000 pessoas tentaram bloquear o enterro com pedras e tijolos, com medo de que o corpo contaminasse o cemitério.

Sua história entrou para os registros da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) como um dos casos mais trágicos de acidente radioativo fora de usinas nucleares.

Quantas pessoas foram contaminadas no total?

A contaminação foi muito além das 4 vítimas fatais imediatas. Veja a dimensão real:

  • 112.800 pessoas passaram por triagem para verificar contaminação
  • 249 pessoas apresentaram algum nível de contaminação interna ou externa
  • 129 pessoas tinham resíduos de Césio-137 no corpo e precisaram de acompanhamento médico contínuo
  • 14 casos foram considerados graves e transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro
  • 8 pessoas desenvolveram a Síndrome Aguda da Radiação (SAR)
  • 14 casos de falência da medula óssea foram registrados
  • 1 pessoa teve o antebraço amputado
  • Cerca de 6.500 pessoas foram atingidas com algum grau de radiação

Esses dados são do Governo do Estado de Goiás, órgão oficial responsável pelo monitoramento das vítimas.

O que aconteceu com o lixo radioativo?

O processo de descontaminação de Goiânia gerou cerca de 6 mil toneladas de resíduos radioativos.

Roupas, móveis, partes de casas e objetos pessoais foram recolhidos e lacrados.

Todo esse material ainda está armazenado em depósitos controlados no município de Abadia de Goiás — monitorado até hoje, quase 40 anos depois.

Só 19 gramas de Césio geraram 6 mil toneladas de lixo radioativo. Pense nisso.

Na escala de acidentes nucleares, o desastre de Goiânia foi classificado como nível 5 — de uma escala que vai de 0 a 7. Chernobyl foi nível 7.

E quem sobreviveu? Como estão as vítimas hoje?

Décadas depois, o drama continua para muitos sobreviventes.

Mais de 1.141 pessoas ainda eram monitoradas pelo Centro de Assistência aos Radioacidentados (CARA), vinculado à Secretaria de Saúde de Goiás.

A Associação de Vítimas do Césio 137 denunciou que muitos afetados recebiam apenas R$ 954 mensais de auxílio — valor considerado insuficiente pelas famílias para cobrir tratamentos e medicamentos.

Trabalhadores contratados para a descontaminação que não eram servidores públicos ainda hoje não são reconhecidos oficialmente como vítimas do acidente.

O que aconteceu com Devair Ferreira, o dono do ferro-velho?

Devair Alves Ferreira foi o homem que abriu a cápsula. Recebeu uma dose de 7 Gy de radiação — altíssima para um ser humano.

Sobreviveu ao acidente imediato, mas carregou a culpa para o resto da vida.

Tornou-se alcoólatra, desenvolveu câncer e morreu 7 anos depois, em 1994.

Ivo Ferreira, pai de Leide das Neves, também sobreviveu — mas entrou em depressão profunda após a morte da filha e morreu em 2003, 16 anos depois, por enfisema pulmonar.

Por que o Césio 137 voltou às manchetes em 2025 e 2026?

O tema ganhou nova vida com o lançamento da minissérie Emergência Radioativa na Netflix, que dramatiza os acontecimentos de 1987.

Além disso, o desaparecimento de fontes de Césio 137 numa mineradora em Minas Gerais reacendeu o debate sobre a fiscalização de materiais radioativos no Brasil — e mostrou que o risco ainda existe.

A CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) é o órgão federal responsável por fiscalizar o uso e o descarte de materiais radioativos no país.

Linha do tempo: do pó azul à tragédia

  • 13/09/1987 — Catadores encontram a cápsula na clínica abandonada
  • 18/09/1987 — A peça é vendida ao ferro-velho de Devair Ferreira
  • Setembro/1987 — A cápsula é aberta; o pó azul se espalha por famílias e vizinhos
  • 28/09/1987 — A contaminação é identificada pela Vigilância Sanitária de Goiás
  • 23/10/1987 — Leide das Neves e Maria Gabriela Ferreira morrem
  • 27–28/10/1987 — Israel Baptista e Admilson Alves morrem
  • 1988 — A IAEA classifica o acidente como nível 5 na escala internacional
  • 2000 — O Ministério da Saúde amplia o reconhecimento de vítimas
  • 2011 — Criação do CARA para monitorar os radioacidentados
  • 2025–2026 — A série da Netflix reacende o interesse pelo caso no Brasil e no mundo

FAQ — Perguntas frequentes sobre o Césio 137 em Goiânia

Quantas pessoas morreram oficialmente com o Césio 137?

Quatro pessoas morreram oficialmente em decorrência direta da radiação: Leide das Neves Ferreira (6 anos), Maria Gabriela Ferreira (37 anos), Israel Baptista dos Santos (20 anos) e Admilson Alves de Souza (18 anos), todas em outubro de 1987.

Quantas pessoas morreram ao longo dos anos por causa do Césio 137?

A Associação de Vítimas do Césio 137 estima que cerca de 104 pessoas morreram nos anos seguintes ao acidente, por cânceres e doenças ligadas à contaminação. Outras estimativas falam em ao menos 60 mortes. O governo não reconhece oficialmente esse número.

O Césio 137 ainda representa risco hoje?

Os resíduos estão armazenados em Abadia de Goiás e são monitorados continuamente pela CNEN e pela Secretaria de Saúde de Goiás. O risco de contaminação na região é considerado controlado, mas o monitoramento segue ativo.

Qual foi o nível do acidente na escala internacional?

Foi classificado como nível 5 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares (INES), que vai de 0 a 7. Para comparar: Chernobyl e Fukushima foram nível 7.

Quem era Leide das Neves Ferreira?

Era uma menina de 6 anos, filha de Ivo Ferreira, que teve contato direto com o pó radioativo e chegou a ingeri-lo. Recebeu a maior dose de radiação de todo o acidente (6,0 Gy) e morreu em 23 de outubro de 1987. Tornou-se símbolo da tragédia e deu nome à Superintendência criada para assistir as vítimas.

O que é o Césio 137?

É um isótopo radioativo artificial com meia-vida física de aproximadamente 30 anos. Era usado em aparelhos de radioterapia e emite radiação gama de alta penetração — extremamente perigoso em caso de exposição humana direta.

Tem série sobre o Césio 137 na Netflix?

Sim. A minissérie Emergência Radioativa foi lançada pela Netflix e retrata os eventos de setembro de 1987 em Goiânia, com grande repercussão no Brasil e no exterior.

Conclusão

O acidente com o Césio 137 em Goiânia não é uma história encerrada.

Quase 40 anos depois, sobreviventes ainda lutam por reconhecimento, tratamento médico adequado e indenizações justas — enquanto o número real de mortos continua sendo disputado entre associações de vítimas e o poder público.

Os 4 mortos oficiais são apenas o que aparece na ponta do iceberg. A tragédia real atingiu mais de 6.500 pessoas, gerou 6 mil toneladas de lixo radioativo e deixou marcas físicas, emocionais e sociais que uma cidade inteira carrega até hoje.

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Fontes: Governo do Estado de Goiás | IAEA | CNEN | Associação de Vítimas do Césio 137.

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