Impulsionada por elétricos da China, importação de veículos bate recorde, cresce 141% em 2024 e domina 19% do mercado; nova alta do imposto em julho de 2025 já pressiona os preços.

Quarta-feira (12), Guarapari (ES) — A importação de veículos leves atingiu um crescimento recorde de 141% em 2024, totalizando 104.729 unidades trazidas ao Brasil, o melhor desempenho em uma década. Liderado por modelos eletrificados, como os chineses BYD e GWM, o avanço continuou forte no primeiro semestre de 2025, com os carros importados saltando para 19% dos emplacamentos totais, em contraste com a queda nas vendas de modelos nacionais. Este fenômeno, embora sinalize a rápida adesão do consumidor à eletrificação, acende um alerta severo de desindustrialização para entidades como a Anfavea, que temem a perda de empregos e a baixa sofisticação tecnológica na cadeia produtiva brasileira.
O Impacto da China e a Virada do Mercado Eletrificado
O motor desse crescimento espetacular tem nome e origem: veículos elétricos (EVs) e híbridos plug-in (PHEVs) vindos principalmente da China. Acesse nossa Central automotiva
O Domínio dos Eletrificados
- 90,6% dos carros importados em 2024 eram eletrificados, somando 94.930 unidades. Isso representa mais da metade (53,2%) do mercado total de eletrificados no país.
- BYD na Liderança: A gigante chinesa BYD foi a marca que mais vendeu veículos eletrificados em 2024 e 2025. Em agosto de 2025, o BYD Dolphin Mini (com 3.300 unidades vendidas) e o BYD Dolphin (com 1.311) figuraram como os mais emplacados no segmento elétrico.
- Ameaça à Indústria Nacional: Segundo Igor Calvet, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), o crescimento de 15,6% dos importados no primeiro semestre de 2025 — em que as vendas de nacionais caíram 10% no varejo — representa uma “força desindustrializante”. “Viabilizar o investimento em grande volume por meio de CKD e SKD [montagem de kits] é perpetuar um movimento de baixa sofisticação tecnológica e de baixa geração de emprego”, criticou o executivo.
A Relação entre Imposto, Preço e Produção Nacional
O Governo Federal retomou a cobrança progressiva do Imposto de Importação (II) sobre eletrificados para incentivar a produção nacional. Essa política, porém, gera uma corrida contra o tempo.
A Escalonada do Imposto de Importação (II)
A partir de julho de 2025, o imposto de importação para veículos eletrificados sofreu um novo aumento, seguindo o cronograma estabelecido:
| Categoria | Alíquota em Jan/2024 | Alíquota em Jul/2025 | Alíquota em Jul/2026 (Final) |
| Elétrico (EV) | 10% | 25% | 35% |
| Híbrido Plug-in (PHEV) | 12% | 28% | 35% |
| Híbrido (HEV) | 15% | 30% | 35% |
“O preço dos carros importados, especialmente os elétricos, está em um ponto de inflexão. Os consumidores viram a janela de preços mais baixos se fechar com o aumento de julho de 2025. O movimento agora é de antecipação de compra ou de espera pelos modelos que serão nacionalizados no Brasil,” explica o economista e especialista em comércio exterior, Dr. Roberto Muniz, em entrevista à reportagem, de Vitória, no Espírito Santo.

Tendências para o Consumidor e o Futuro do Setor
Apesar dos desafios fiscais, o mercado aponta para um ano de intensas mudanças, marcadas pela tecnologia e pela busca por sustentabilidade.
A Corrida pela Nacionalização
- BYD e GWM no Brasil: Para mitigar o impacto do imposto e fortalecer a presença no maior mercado da América Latina, marcas chinesas estão investindo em fábricas no Nordeste (Camaçari, Bahia) e no Sudeste (Iracemápolis, São Paulo). A BYD, por exemplo, deve iniciar a produção do Dolphin Mini e do Song Pro em agosto de 2025.
- Novos Lançamentos: O mercado de carros importados, que em 2025 deve ter um aumento projetado de 5% para o total de vendas, será inundado por cerca de 90 novos lançamentos, com foco em veículos eletrificados, tecnologia embarcada e conectividade.
O Elemento Humano: A Decisão de Compra
O fator decisivo para o consumidor não é mais apenas o preço, mas a tecnologia e a eficiência energética. “Eu estava entre um SUV nacional top de linha a combustão e um elétrico importado. A diferença de custo por quilômetro e a experiência de dirigir, mais silenciosa e moderna, fizeram a balança pender. Mesmo com o imposto, ainda compensa pelo valor agregado da tecnologia chinesa,” relata a empresária Renata Almeida, moradora de Vila Velha (ES) e recém-compradora de um SUV híbrido plug-in.
Conclusão: Um Mercado em Transformação Acelerada
O mercado de carros importados no Brasil vive um momento de contradição: um crescimento explosivo em vendas, impulsionado pela demanda por eletrificados, que coloca em xeque a produção nacional. Enquanto o consumidor celebra a chegada de veículos mais modernos e eficientes, a indústria brasileira de São Paulo e Bahia corre para se adaptar aos novos padrões tecnológicos. A escalada do imposto de importação é a principal ferramenta do governo para forçar essa adaptação. O resultado final será visto em 2026, quando a alíquota atingir o teto de 35% e a nacionalização se tornar uma necessidade para as marcas que quiserem manter a competitividade de preços.