13 Mistérios sobre o Césio 137 que Poucos Conhecem — e o Mais Perturbador Está no Número 5
Césio 137: 13 curiosidades sobre o maior acidente radiológico do Brasil. Pó azul, brilho no escuro, mortes contestadas e a heroína desconhecida. Confira agora!
CIÊNCIA & HISTÓRIA — Guarapari, ES · Quarta-feira, 1º de abril de 2026

Em setembro de 1987, um pó azul e brilhante encontrado num ferro-velho de Goiânia desencadeou o maior acidente radiológico do Brasil — e um dos piores do mundo fora de usinas nucleares. Quase quatro décadas depois, o caso voltou ao centro das atenções com a série Emergência Radioativa, da Netflix, estreada em março de 2026. Mas por trás da tragédia que todos conhecem, existe uma série de fatos que poucos sabem. Confira os 13 mistérios e curiosidades sobre o Césio 137 que vão te deixar sem palavras — e entenda por que esse caso ainda é estudado no mundo inteiro. Antes, veja também quantas pessoas realmente morreram no acidente do Césio 137 em Goiânia.
Índice
1. O nome “Césio” significa “céu azul” — e o pó realmente brilhava em azul no escuro
A palavra caesium, em latim, significa “céu azul”. E não por acaso: o cloreto de Césio 137 liberado no acidente de Goiânia emitia um brilho azulado intenso no escuro, causado pela ionização do ar ao redor da substância radioativa.
Foi exatamente esse brilho misterioso que fascinou Devair Alves Ferreira, o dono do ferro-velho que abriu a cápsula. Ele chamou a substância de “o brilho da morte” — e levou o pó para casa para mostrar à família. O que parecia mágico era, na verdade, um sinal de radiação letal.
2. A cápsula ficou abandonada por dois anos — e ninguém percebeu
O equipamento de radioterapia que continha o Césio 137 estava abandonado desde 1985 numa clínica desativada no centro de Goiânia — o antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR). Durante dois anos, a cápsula radioativa ficou exposta, sem vigilância, tomada pelo mato, enquanto o prédio aguardava uma disputa judicial.
A situação só evoluiu para o desastre em 13 de setembro de 1987, quando dois catadores de lixo — Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira — entraram no prédio em busca de metal para vender. Nem eles, nem ninguém imaginava o que estava dentro do aparelho.
3. O Césio 137 se parece com sal de cozinha — e isso agravou tudo
O cloreto de Césio 137 (CsCl) é um sal muito semelhante ao sal de cozinha (NaCl): pó fino, de aparência cristalina, que se dissolve facilmente em água. Essa semelhança foi um dos fatores que mais agravou o acidente.
A substância se espalhou com facilidade — nas mãos, nas roupas, nos alimentos e nas superfícies — sem que as pessoas percebessem. Era invisível, não tinha cheiro, não tinha sabor. O único sinal era o brilho no escuro. E quem via o brilho achava bonito.
4. Uma criança de 6 anos brincou com o pó e se tornou símbolo da tragédia
Leide das Neves Ferreira tinha apenas 6 anos quando o pai, Ivo Ferreira, trouxe parte do pó azul para casa. Sem entender o perigo, a menina brincou com a substância — e chegou a ingerir parte dela. Morreu em 23 de outubro de 1987, menos de dois meses após o início do acidente.
Leide se tornou o rosto humano da tragédia. Seu enterro foi marcado por cenas chocantes: moradores protestaram contra o sepultamento com medo de contaminação, e o caixão teve que ser revestido de chumbo. A história dela ainda comove quem a conhece.
5. Uma mulher foi a heroína desconhecida que salvou Goiânia
Maria Gabriela Ferreira, esposa de Devair e tia de Leide, foi a pessoa que percebeu que algo estava gravemente errado. Enquanto todos adoeciam e os médicos não encontravam a causa, foi ela que, em 28 de setembro de 1987, levou a cápsula radioativa à Vigilância Sanitária de Goiânia.
O ato corajoso de Maria Gabriela — que carregou o material radioativo de táxi até a vigilância — foi decisivo para que as autoridades identificassem o problema e iniciassem a contenção do desastre. Ela morreu no mesmo dia que a sobrinha, vítima da radiação que ela mesma ajudou a denunciar.
6. Mais de 112 mil pessoas foram monitoradas — mas o número real de mortos é contestado
Os dados oficiais registram 4 mortes diretas pelo acidente. Mas essa é uma das maiores controvérsias do caso. A Associação das Vítimas do Césio 137 afirma que, até 2012 — quando o acidente completou 25 anos — cerca de 104 pessoas morreram nos anos seguintes em decorrência de cânceres e complicações relacionadas à exposição.
Ao todo, 112.800 pessoas foram monitoradas, 249 apresentaram algum nível de contaminação e 129 precisaram de acompanhamento médico prolongado. O número real de afetados permanece disputado até hoje. Entenda melhor quantas pessoas realmente morreram no acidente do Césio 137.
7. O corpo humano confunde o Césio com potássio — e o absorve como nutriente
Um dos aspectos mais perturbadores do Césio 137 é o seu comportamento dentro do corpo humano. O organismo não reconhece o Césio como veneno — ele o confunde com potássio, um mineral essencial para o funcionamento das células.
Por isso, o corpo absorve o Césio radioativo com relativa facilidade, distribuindo-o pelos tecidos e órgãos como se fosse um nutriente. Uma vez dentro do organismo, a radiação danifica o DNA das células, podendo causar cânceres, falência de órgãos e síndrome aguda da radiação.
8. A cápsula foi fabricada nos Estados Unidos em 1971 — e tinha 1.375 Curies de radioatividade
O equipamento de radioterapia que originou o acidente foi fabricado por volta de 1971, no Laboratório Nacional de Oak Ridge, nos Estados Unidos. Quando foi encontrado pelos catadores, 16 anos depois, a cápsula ainda continha 19,26 gramas de cloreto de Césio com uma atividade radioativa de 1.375 Curies — o suficiente para irradiar qualquer pessoa que ficasse próxima por minutos.
O nível de radiação era tão alto que especialistas chegaram a comparar a exposição direta com estar próximo a um reator nuclear em funcionamento.
9. O acidente só foi descoberto porque uma médica usou um contador Geiger improvisado
Quando as primeiras vítimas chegaram aos hospitais de Goiânia com sintomas estranhos — vômitos, queda de cabelo, queimaduras sem causa aparente —, os médicos não faziam ideia do que estava acontecendo. Foram dias de diagnósticos errados e tratamentos ineficazes.
A identificação do problema só foi possível quando a física médica Lúcia Gomes de Oliveira utilizou um detector de radiação para examinar os pertences das vítimas. O equipamento disparou imediatamente. Foi o momento em que tudo ficou claro — e o desastre passou a ser tratado como emergência nuclear.
10. O local da clínica abandonada virou um Centro de Convenções
O prédio do antigo Instituto Goiano de Radioterapia, de onde partiu toda a tragédia, foi demolido e descontaminado. No lugar, surgiu o Centro de Convenções de Goiânia — um dos maiores do Centro-Oeste do Brasil.
Hoje, milhares de pessoas circulam pelo local sem saber da história que aconteceu ali. A memória da tragédia é mantida por museus, documentários e, mais recentemente, pela série da Netflix — mas o endereço físico do desastre foi completamente transformado.
11. 6.000 toneladas de material contaminado precisaram ser removidas — incluindo casas inteiras
O processo de descontaminação de Goiânia foi um dos maiores já realizados fora de uma usina nuclear. Mais de 6 mil toneladas de material contaminado foram retiradas da cidade — incluindo roupas, móveis, plantas, animais, camadas de solo, paredes e até casas inteiras que foram demolidas.
Todo esse material foi transportado para um depósito especialmente construído no município de Abadia de Goiás, a 24 km da capital, onde permanece armazenado até hoje, monitorado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
12. A meia-vida do Césio 137 é de 30 anos — o material ainda existe no depósito hoje
O Césio 137 tem uma meia-vida de aproximadamente 30 anos — isso significa que, a cada 30 anos, metade da sua radioatividade se dissipa. O acidente ocorreu em 1987. Em 2026, o material armazenado em Abadia de Goiás ainda é radioativo.
A boa notícia: especialistas afirmam que as áreas urbanas atingidas em Goiânia foram totalmente descontaminadas e não apresentam mais risco à população. Mas o depósito em Abadia de Goiás continuará sob monitoramento por décadas.
13. O Césio 137 e Guarapari têm algo em comum — mas são opostos
Esta última curiosidade é para os leitores de Guarapari: a cidade é famosa pelas suas areias monazíticas — areias escuras ricas em elementos radioativos naturais como tório e urânio. Muita gente visita a Praia da Areia Preta exatamente por isso, acreditando nas propriedades terapêuticas da areia.
A diferença crucial: a radioatividade natural das areias de Guarapari é de baixíssima intensidade, completamente diferente do Césio 137 artificial e altamente concentrado do acidente de Goiânia. São dois mundos opostos — um símbolo de saúde e turismo, o outro de uma das maiores tragédias nucleares fora de uma usina. O que eles têm em comum é que ambos lembram que a radiação, em doses corretas ou erradas, pode mudar vidas para sempre.
Perguntas e respostas sobre o Césio 137
O Césio 137 ainda existe em Goiânia?
Não. As áreas urbanas afetadas foram totalmente descontaminadas. O material radioativo retirado da cidade está armazenado em Abadia de Goiás, em depósito monitorado pela CNEN, e não representa risco para a população de Goiânia.
Quantas pessoas morreram no acidente do Césio 137?
Oficialmente, 4 mortes diretas foram registradas. Mas a Associação das Vítimas do Césio 137 afirma que cerca de 104 pessoas morreram nos 25 anos seguintes ao acidente em decorrência de cânceres e complicações relacionadas à exposição.
O que é a série Emergência Radioativa da Netflix?
É uma produção brasileira lançada em março de 2026 que dramatiza os primeiros dias do acidente em Goiânia, mostrando a atuação de médicos, físicos e autoridades diante da tragédia. A série é baseada em fatos reais.
O Césio 137 é o mesmo material das bombas nucleares?
Não exatamente. O Césio 137 é um subproduto de reatores nucleares usado em equipamentos de radioterapia e indústria. Bombas nucleares usam outros materiais, como Urânio 235 ou Plutônio 239. O Césio 137 é perigoso não pela explosão, mas pela radiação que emite continuamente.
Conclusão
O acidente com o Césio 137 em Goiânia é uma das histórias mais perturbadoras e fascinantes da história recente do Brasil. Um pó azul e brilhante que parecia mágico, uma criança de 6 anos que brincou com a morte, uma mulher corajosa que salvou uma cidade ao custo da própria vida — e uma lição que o mundo inteiro ainda estuda quase 40 anos depois. Se a série da Netflix despertou sua curiosidade sobre o tema, aprofunde-se no caso e entenda o que realmente aconteceu em 1987.



